Posse de bola no Facebook

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sábado, outubro 21, 2017

Não te adaptes! As convicções são a diferença que te caracteriza...

O contexto tem sido o maior motivador para que se expliquem as maiores mudanças, e as diferenças mais evidentes entre o jogo que um e outro treinador idealiza. E a adaptação, a mudança da forma de jogar de equipas do mesmo treinador, tem sido a virtude mais elogiada nos treinadores actualmente. Defendo, naturalmente, que cada treinador deve optar por aquilo que sente, uma vez que só sentindo conseguirá convencer os seus jogadores a seguirem a sua ideologia. Porém, ficam sempre algumas questões pendentes. Será a adaptação ao contexto, seja lá o que contexto for, a melhor resposta para fazer evoluir uma equipa nos seus comportamentos, para que se torne mais eficiente na resolução dos problemas do jogo? Dever-se-à comprometer toda uma ideologia, e toda uma forma de jogar e de treinar, todos os grandes princípios, em função da especificidade de um jogo, de uma equipa, de um jogador adversário, de uma cultura? Se adaptação fosse a melhor resposta, como é que fenómenos como Sarri ou Pochettino vingam de forma tão estrondosa?

Num campeonato onde todos procuram por duelos, onde o jogo de primeiras e segundas bolas é disputado com a bola no ar, sempre com muita ferocidade, podemos optar por dois tipos de abordagem:  

- A adaptação. Colocar jogadores mais fortes nos duelos, retirar os menos aptos a vencer duelos e disputas de bola no ar. No fundo, abdicar do talento que é a bandeira habitual da equipa por outro tipo de talento do qual a equipa não faz uso regular. Recuar a equipa nos momentos de organização defensiva para atacar a bola de frente, colocar menos gente no processo ofensivo e mais em posições mais conservadoras (em posse). Ao fim ao cabo, retirar referências habituais em termos de posição, de espaços e de linhas de passe. Seguir um caminho que todos os outros seguem para não ficar em desvantagem.

- A alteração do contexto em nosso favor. Tentar ao máximo retirar os duelos, e a influência da nossa fragilidade nas disputas no ar, do jogo. Convencer os jogadores a fazerem um jogo ligado, de passe curto, onde a equipa chegue junta ao último terço. Um jogo onde a equipa procure caminhos que fogem ao choque, com a bola no chão, e onde é ela que se move rapidamente enquanto os jogadores caminham para as melhores posições para atacar a área adversária. Um jogo onde a equipa não despacha cada bola, tendo em conta que quanto mais rápido a bola for colocada no ar, na disputa, mais rapidamente o adversário terá possibilidade de expor as nossas fragilidades. No fundo, transformar toda uma dinâmica de jogo no lugar de sermos transformados por ela, e com isso obrigar o adversário a adaptar-se a um jogo que não estão habituados a jogar. Seguir um caminho distinto para conseguir ganhar vantagem.

Os meus maiores momentos de aprendizagem, no jogo têm sido com gente que me é mais próxima, e é com eles que vou cada vez mais solidificando as convicções e afinando as ideias. Foi perguntado a um treinador bi-campeão nacional e vencedor de duas taças de Portugal consecutivas, com quem trabalhei e privei de muito perto, o que mudaria se fosse ele o treinador da equipa que ficou no último lugar - "Nada. Eu também teria descido de divisão". Foi essa a resposta, uma vez que foi a qualidade da equipa, dos jogadores, a ditar a descida de divisão por melhor que fosse o treinador. Se a equipa vai descer de divisão, se vai ter dificuldade, resta-nos apenas escolher a forma de perder... Então, o que é afinal o contexto? O contexto não é nada mais do que as escolhas que nós fazemos para a nossa equipa, para o nosso jogo. O contexto é o caminho que indicamos aos nossos jogadores quando colocámos no onze inicial jogadores com determinadas virtudes em detrimento de outras, e são as respostas que encontramos para resolver os problemas que nos aparecem no jogo. O contexto é a diferença entre encontrar uma possível solução para o problema, ou alterar a problemática em questão. 

No futebol há várias certezas: Vamos marcar e sofrer golos, vamos ganhar, perder, e empatar jogos, e a única palavra que temos a dizer sobre isso é na forma como isso vai acontecer...pelo caminho que escolhemos percorrer com aquele grupo. Por isso, por ser só uma questão de escolhas, o meu maior elogio será sempre para quem consegue alterar todo um contexto, e convida quem joga e quem vê jogar a retirar sensações positivas de um jogo que vive na própria cabeça. E todos os anos, para a esmagadora maioria dos treinadores que alegam ser o contexto a principal razão para um jogo menos ligado, menos organizado, menos aprazível, aparecem fenómenos que nas mesmas condições, que em contexto semelhante, procuram por respostas diferentes e fazem escolhas que nos espantam. Tudo por uma questão de convicção, de conforto no treino, e de maior afinação num determinado tipo de ideologia.

domingo, agosto 27, 2017

Atracção pela bola. Pêpê.

Há jogadores que se surpreendem pela postura do adversário, por não terem a capacidade de antecipar os movimentos dos mesmos. E há jogadores que conseguem jogar com as expectativas do adversário de tal forma que conseguem desmontar e desequilibrar qualquer esquema defensivo. A questão dos desequilíbrios é que a maior parte deles, por se realizarem longe dos momentos de notoriedade, passam despercebidos. Principalmente quando os jogadores jogam com as intenções do adversário e usam o passe para executar o que lhes vai na cabeça. A gestão da bola, é isso que faz a diferença entre os bons e os grandes. Porque independentemente da defesa ser individual, ou zonal, quem tem a bola tem a possibilidade de chamar a si todas as atenções, e com isso conseguir ditar o rumo da jogada. Saíram do Seixal dois talentos extraordinários no entendimento deste princípio de atracção: um deles não foi aproveitado na Luz e farta-se de chamar à si a pressão para deixar colegas em melhores condições para dar seguimento aos lances, no Manchester City; o outro está neste momento emprestado ao Estoril.

É possível que, por o lance não ter tido o aproveitamento devido, a qualidade e raridade da acção de Pêpê não tenha ficado na retina. Até porque num momento em que a equipa perdia por dois golos de diferença, e faltavam apenas onze minutos para o final do jogo, esperava-se que o jogo fosse mais precipitado no sentido da baliza adversária. A calma e tranquilidade do menino com as voltas que parecem eternas, em condução de um lado para o outro na tentativa de ganhar espaço e perceber melhores soluções, na tentativa de mover o adversário e libertar colegas, chegam para irritar quem gosta de ver a bola chegar rapidamente perto das balizas, ainda que as condições não sejam as melhores. Porém, ele resiste ao ímpeto do resultado e do tempo, chama à atenção do adversário, faz mover o bloco do Sporting, e liberta para o corredor de onde a bola vinha criando uma situação de 2x1. Seja com defesa zonal ou marcação individual ninguém resiste ao chamado do portador da bola enquanto ele à movimenta perto do bloco ou do jogador que defende, e perceber esse principio é mais de meio caminho andado para resolver os problemas que o jogo coloca quando em posse; Porque o brilhantismo começa quando tens a capacidade de levar o teu adversário para onde quiseres.

sábado, junho 17, 2017

Futebol em preto, branco e cinzento

O futebol é um jogo em que no final de uma competição alguém sairá vencedor...sempre. E desse ponto de partida percebe-se que, a condição fundamental para cortar a meta em primeiro lugar é lá estar. Isto é, qualquer um arrisca-se a ganhar desde que esteja inscrito na competição. E, a não ser que se considere um grande mérito estar inserido numa qualquer prova de futebol, o ganhar por si só não revela competência ou qualidade por parte da equipa que sai vitoriosa no final. Nem os jogadores têm mais qualidade do que os outros por terem vencido, nem o treinador tem mais competência por ver a sua equipa coroada com a vitória final. Pode, sem ser absurdo nenhum, uma equipa vencer o campeonato e as provas europeias sem treinador, por ser individualmente muito superior. E é aqui que começa o preto e o branco.

O preto é o principal atalho para uma equipa conquistar os objectivos a que se propõe: o jogador. O grande desequilibrador, à priori, de jogos de futebol, é a diferença de qualidade dos jogadores. E mais uma vez, a diferença não está em quem sai vitorioso no final do jogo, mas sim na forma que cada um joga o jogo. Isto é subjectivo? Não. O futebol é um jogo que tem regras, e as regras dizem que, por exemplo, se fizeres falta dentro da tua grande área a equipa será punida com um pontapé de penalti. Ou seja, um jogador que esteja constantemente a fazer faltas dentro da grande área é um jogador que está a jogar mal o jogo, por estar a diminuir com as suas acções as probabilidades de êxito da equipa. E é, portanto, um jogador de menos qualidade do que um que não esteja de forma constante a fazer faltas dentro da grande área. Se uma equipa quer ganhar consecutivamente o passo fundamental a dar é ser mais forte do que a concorrência na qualidade individual dos jogadores. São eles que jogam, que fazem a bola rolar, que marcam golos, e que resolvem os problemas do jogo. Portanto, a aposta incondicional deve ser neles, porque quem tiver os melhores jogadores, com ou sem treinador, será sempre o maior candidato a conquistar as provas em que está inserido.

Há porém outros factores de desequilíbrio no jogo. Factores externos, que vão influenciar a performance dos jogadores. O branco. A forma como o arbitro guia o jogo, o maior ou menor estado de inspiração ou confiança do jogador, o clima, o estado do campo, o ruído exterior dos agentes do clube ou dos meios de comunicação, o público, as relações pessoais do jogador, a sorte, etc. É um jogo que impõe uma interacção tal de seres humanos que são incontáveis os imponderáveis que no final influenciam o desfecho de um jogo e de uma competição. O branco, juntamente com o preto, é o que faz do futebol este desporto apaixonante onde quem parte em larga desvantagem pode sempre sonhar com a glória da vitória final. É o desporto que faz, como muito poucos, aparecer o cinzento.

Falando mal e depressa, o cinzento são os problemas que o treinador tenta resolver. É isso que distingue os treinadores dos cozinheiros. O treinador resolve problemas do jogo, o cozinheiro resolve problemas de cozinha. Se não é para não resolver problemas, o que está lá o treinador a fazer então? Qual é o grande mérito de alguém que está lá para fazer um trabalho e não consegue, ainda que no final vença? Voltemos ao início: Venceu porque alguém tinha que o fazer. E, se não se percebe o seu toque na performance da equipa por que motivo se tenta procurar na sua figura algum mérito em particular? Vivemos numa sociedade onde todos procuram por justificações, factos, para explicar o sucesso de determinada figura ou de determinado evento. E por isso, por andarem todos a fazer o mesmo, a conclusão é sempre igual. Por exemplo, no futebol, se um treinador ganha e ninguém percebe exactamente o dedo do treinador nos padrões de jogo da equipa, ou se esses mesmos padrões são pouco evoluídos e não deveriam dar resposta aos problemas que o jogo apresenta, então torna-se unânime que a vitória foi da liderança do treinador. A conclusão é sempre a mesma, porque andam todos a fazer a mesma pergunta, sobretudo a nova e mais formada classe dos treinadores: Qual é o mérito do treinador nisto? Mas, a pergunta já assume que algum mérito de peso há de ter. Já vai viciada. Quando aparece alguém a questionar esse método, a dizer que uma equipa pode ganhar independentemente do treinador, ou que o mérito do treinador é tanto quanto o mérito do observador dos adversários (há mérito, mas não é de todo fundamental para o sucesso), de imediato causa estranheza. Porque, mais uma vez, anda tudo a perguntar o mesmo.

O Leicester é um bom exemplo para este caso: o mundo do futebol rendeu-se à competência colectiva, e à liderança do treinador que os guiou ao título. Tinha que haver algum mérito nas ideias de jogo arcaicas de Ranieri, e o resto era a forma como geria o plantel. Era uma equipa, por exemplo, fortíssima nas bolas paradas defensivas e ofensivas, por mérito do treinador. Foi o trabalho desses momentos do jogo que permitiram que esse factor, as bolas paradas, se revelassem tão eficazes. Passado uns meses, com o mesmo treinador e tendo apenas perdido um jogador (que para as bolas paradas pouco importante era), passaram a marcar muito pouco de bola parada, e sofriam quase sempre nos mesmos lances. O que se passou? Mais uma vez, turvados pela visão do sucesso circunstancial, todos perguntavam o mesmo, e por isso, a resposta foi uma só. Hoje, gostaria de perceber qual é a explicação para o défice colectivo nas bolas paradas da mesma equipa, e para a quebra das qualidades de líder de Ranieri. Por exemplo, não será no aperto, na dificuldade, que melhor se percebe a capacidade de liderar de alguém?

Bom, voltando ao cinzento, a responsabilidade do treinador é tentar ao máximo retirar o efeito dos imponderáveis sobre a performance dos seus jogadores. Isto é, tornar o jogo mais limpo e mais simples para eles, para que possam evidenciar as melhores qualidades e esconder os defeitos. E é pela linguagem colectiva, pelos padrões de jogo, que o treinador o faz. Assim como um cozinheiro o faz pela forma como confecciona os seus pratos, o método no futebol também importa. Um método melhor, que resolva melhor os problemas do jogo, é um método que perdura ao longo do tempo. Mas, para tal, é preciso que também perdure no treino. Porque, não há mudanças duradouras que se façam com pouco tempo de prática. E o que parece hoje é acreditar-se que o sucesso circunstancial é que dita tais mudanças. É como aquela sensação que se tem quando, por exemplo, se toca piano pela primeira vez. Naquele dia sentes-te o super homem, e com uma capacidade brutal, porque vais melhorando muito, em muito pouco tempo. Porém, passados dois dias sem tocar regressas à realidade e percebes que afinal não tinhas aprendido nada. E muitos treinadores hoje, ao fim de duas ou três semanas desistem de uma forma de jogar e de treinar porque os jogadores não estão a executar como querem. Talvez as ideias não estejam tão afinadas, não sejam tão sólidas. 

Vou, mais uma vez, fazer uma oposição entre Mourinho e Guardiola. Pogba diz que Mourinho é bom porque ganha, que é especial por isso. Kompany diz que Guardiola é especial porque nunca tinha visto o City pressionar tanto, ter tanta bola, chegar tantas vezes com perigo, dominar tanto as incidências do jogo. Disto, ficam sinais de que as mudanças que Guardiola tenta operar (pela aprendizagem) serão mais duradouras e relevantes do que as de Mourinho (pela vitória de uma forma qualquer). Isto é, enquanto Guardiola procura durante a semana provocar uma mudança nos seus jogadores para que procurem pelas melhores formas de jogar futebol, Mourinho procura por estratégias em cada semana para derrubar aquele adversário em particular. De um dia para o outro, de uma semana para outra, é natural que os jogadores de Mourinho se comportem de forma diferente, e que depois de aparentemente terem aprendido já não saibam repetir o comportamento ainda que a circunstância o peça na semana seguinte. Porque foi uma aprendizagem circunstancial, de curto prazo, e por isso não perdura. E se é claro que os treinadores devem procurar por jogadores que vão mais de encontro à sua forma de jogar, é no treino que, pela repetição, os jogadores se aproximam do que o treinador pede. É uma tarefa difícil! Muito difícil, sem dúvida. Mas se o treinador apenas serve para treinar e jogar na sua ideia de jogo, com jogadores que já estão dentro desse idealismo,  qual é a diferença entre ter um treinador, ou contratar apenas jogadores dentro daquela ideia e ter no lugar do treinador um cozinheiro? Onde está, afinal, a competência do treinador? Se a qualidade do treinador não está presente na forma como a equipa se apresenta em campo, então está no quê?

O treinador, hoje, esconde-se por trás da qualidade dos jogadores para justificar que a sua equipa não jogue o jogo que ele idealiza. Mas então, das duas uma: ou o treinador escolhe muito mal os projectos e os jogadores, ou então não tem competência para tentar convencer os seus jogadores de que há outros caminhos mais prováveis para o sucesso, e que esses caminhos serão menos de circunstância e mais duradouros do que outros. Claro que, um jogador preto será sempre preto e um jogador branco será sempre branco. Mas, se o treinador persistir na procura de novas soluções para resolver o problema do afastamento que existe entre a sua concepção de jogo e a forma como o jogador interpreta o jogo, o preto e o branco poderão tornar-se um pouco cinzentos. E essas pequenas mudanças só poderão ocorrer com a exposição dos jogadores ao erro dentro de uma determinada ideologia no treino, e no jogo. Porque é pelo erro que ele vai descobrir os seus caminhos dentro daquela forma de operar.

As grandes equipas da história tiveram uma coisa em comum: Controlavam a bola e o espaço. Isso significa que quando tu tens a bola tu mandas no jogo, e quando defendes controlas o espaço. Arrigo Sacchi.  

quarta-feira, maio 24, 2017

O Bem jogado e o mal jogado. Forçar ou recomeçar.

O futebol é um jogo onde em defesa de cada modo de idealizar o jogo se diz por demasiadas vezes que existe uma grande subjectividade naquilo que é a noção de bom ou mau futebol. Ou seja, fala-se do futebol como se fosse um jogo sem regras e sem constrangimentos que nos indiquem quais são os caminhos a percorrer que maior probabilidade de sucesso nos dão em relação a outros. Quando se assume uma posição, em relação a muitos assuntos ligados ao jogo, de: "esta é a minha opinião, a minha forma de pensar e sentir o jogo, e a minha ideia em relação a esta situação", fala-se como se essa assumpção garantisse a maior, ou igual, validade da ideia em relação a outras. Isto é, como é óbvio todos temos formas diferentes de ver, sentir, e interpretar. E todos temos o direito à opinião. Porém, tal não implica que essa opinião, essa forma de sentir e interpretar, tenha maior, menor, ou igual valor em relação a outras. Desengane-se quem pensa isso do futebol, porque o futebol é um jogo que tem regras, que tem constrangimentos criados pelas regras, e que por isso tem formas de jogar melhores do que outras. Claro que, por ser um jogo dominado por imponderáveis como nenhum outro todas as ideias podem resultar em vitórias. Veja-se o Leicester do ano anterior. Nenhuma forma garante a vitória, mas há que entender que existem formas que mais se aproximam dela. Formas que nos dão indicadores de uma maior probabilidade de sucesso tendo em conta a qualidade dos jogadores e do adversário.

Veja-se o exemplo do vídeo que se segue.

Ao início fica a sensação de que a equipa teve vários momentos para acelerar sobre a baliza e tentar a finalização, e que apenas não o fez por capricho. Ou seja, que foi mal jogado. Que a equipa fez uma posse sem grande objectividade, que chegou perto da área adversária por várias vezes mas nunca a invadiu. E que era absolutamente desnecessário, tento conquistado um espaço tão importante próximo da baliza adversária e por isso longe da própria, recuar tanto e jogar inclusivamente com o Guarda-redes, trazendo mais risco à posse pela proximidade da própria baliza. Mas, analisando o lance ao pormenor as sensações são bem diferentes.


A primeira possibilidade de forçar o ataque, e tentar uma situação de finalização aparece aqui. O portador da bola, tendo em conta o espaço que tem disponível, tem a possibilidade de continuar a progredir, atacar o espaço, e orientando a bola no sentido certo atacar um dos defesas na última linha e forçar o 2x2. Porém, talvez por perceber a chegada de outros dois elementos da defesa, percebe que mesmo atacando um dos dois últimos defesas as suas possibilidades de tirar partido do lance ficariam bastante reduzidas. Ficaria numa situação de 1x3 (no espaço próximo da bola), e com um colega que se deslocava longe dele. Optou por travar, virar-se para a equipa e atrasar para alguém que se aproximava em apoio.


São dois passes para trás que permitem a quem defende repor um número importante de jogadores atrás da linha da bola, tendo em conta a situação inicial. Mas, sendo que não existia vantagem temporal, sequer espacial ou numérica na primeira imagem (a não ser que fosse forçada, com um grande risco de insucesso), são dois passes que permitem a possibilidade da equipa criar uma situação de ataque melhor.


Este é o início do segundo momento onde a equipa poderia ter forçado a entrada na área, onde o portador da bola decide forma fantástica aproveitar o movimento de ruptura do seu colega, que arrasta um adversário, para enquadrar outro colega de frente para a linha defensiva e com possibilidade de remate. A possibilidade de remate só existe realmente se ele o fizer de primeira, uma vez que a aproximação dos defesas à bola foi até bastante rápida.


No seguimento do lance a bola é jogada para o jogador que aparecia na largura do lado contrário, que parece ter a possibilidade de invadir a área forçando o 1x1. Há espaço e as coberturas até estão relativamente longe, sendo que dentro a área a abordagem do defesa tende a ser mais conservadora para tentar evitar um penalti. Todavia, no 1x1, a única solução seria tentar vir por dentro uma vez que por fora a finalização ficaria comprometida (pelo pouco ângulo, pela abordagem do defesa) e a possibilidade de sucesso na finalização do cruzamento também era muito escassa tendo em conta a posição onde se encontravam os colegas, e o adversário. Não existia vantagem nas zonas de finalização.


Um segundo depois percebe-se que mesmo o 1x1, caso a opção fosse atacar por dentro deixaria de ser um 1x1 pela rápida aproximação da cobertura. E o cruzamento continuava a ser uma opção cuja probabilidade de sucesso era baixa. Mais uma vez o portador da bola decide bem em jogar na cobertura. Em vez de forçar, recomeça o ataque. Por curiosidade, repare no comentário do comentador quando o passe é feito.

Por esta altura, e se avançou o vídeo, já começa a ficar evidente um indicador que vai ser fundamental para o desfecho do lance: a diferença de postura defensiva em cada zona. Isto é, quando a equipa defende no seu meio campo defensivo a postura sobre a bola é muito mais conservadora e menos agressiva. Mais de contenção e de espera do erro. 


À medida que a bola vai recuando e entrando dentro do meio campo defensivo da equipa em posse, parece que se activam marcadores de pressão e que a agressividade sobre a bola e linhas de passe aumenta.


Com a sucessão de passes, com os passes para trás, com o atraso ao Guarda-redes e sobretudo por não ter perdido a bola, a equipa consegue criar passado um minuto e meio uma situação bem mais interessante do que a primeira, curiosamente no mesmo corredor. Desta vez, o portador da bola já tem soluções próximas e interessantes, não está muito pressionado e tem até algum espaço. Ainda assim não houve movimentos que permitissem soluções para forçar a penetração em condução ou com uma ruptura. Mais uma vez o passe escolhido foi para o apoio (neste caso, lateral).


Poderia aqui, o portador da bola, ter forçado o 2x2 com uma tabela e uma desmarcação de ruptura. Não teria sido uma má decisão, e daria a possibilidade de aproveitar a desmarcação do jogador que aparecia do lado contrário para receber em condições de finalizar. E ainda assim, a opção foi por continuar a procurar uma solução mais interessante e que garantisse maior probabilidade de sucesso do que esta.


Mais uma vez a bola entra no meio campo defensivo da equipa em posse, o adversário activa a pressão, aumenta a agressividade, e fica encontrada a situação ideal para acelerar. Aquela vantagem numérica (3x1) é o que impede uma abordagem mais agressiva do único defesa naquele espaço, e é o que permite a vantagem, o explorar da vantagem espacial no momento seguinte. Depois é um 3x2, e a finalização surge em 1x0+Gr. 

Para que o lance tivesse este desfecho tão favorável (a criação de uma situação de finalização de 1x0+Gr, onde o portador da bola tinha tempo e espaço) houve um factor chave: a entrada da bola no meio campo defensivo da equipa em posse. Foi isso que permitiu, em larga medida, que o adversário se desorganizasse com a pressão que tentava exercer e com a agressividade que colocava na tentativa de recuperação nesse espaço. Sem os passes para trás, sem os múltiplos recomeços, dificilmente se conseguiria prever uma situação de tão provável finalização quanto a que se criou. Por isso, neste caso particular, contra este adversário, neste contexto específico, fazer posse no meio campo defensivo era a garantia de um ataque mais promissor caso essa pressão fosse ultrapassada, e era melhor jogado do que fazer posse no meio campo ofensivo.

segunda-feira, maio 22, 2017

A vitória de Pochettino e Guardiola numa liga onde Conte é campeão

Este texto não pretende beliscar a incontestável vitória do Chelsea na liga. Conte foi o treinador que mais mereceu vencer o campeonato porque conseguiu traduzir as regularidades do seu jogo em pontos. Muitos pontos! É uma equipa do treinador, onde se percebe em cada momento que há uma ideia pela qual os jogadores procuram. E mais do que isso, é uma ideia que foge do idealismo de que em Inglaterra deves ser inglês. De que te deves adaptar ao futebol que se joga, em vez de impores o teu estilo adaptado ao que os jogadores conseguem fazer. Conte ganhou porque decidiu ser ele próprio, e nada inglês.

Guardiola triunfou. De forma menos evidente do que noutros anos, mas conseguiu uma pequena, pequeníssima vitória, que poderá ser o fundamental para conseguir traduzir a sua forma de jogar em títulos. É uma vitória tão importante que poderá dar a estabilidade emocional que os seus jogadores necessitam, que a sua ideia de jogo exige, para que sejam mais regulares na exibição das matrizes do seu jogo. Conquistou o público.
O aplauso ao passe para trás, ao atraso para o guarda-redes, mostra uma mudança que não é fácil conseguir em tão pouco tempo, ainda para mais sem títulos associados. Ou seja, sem o sucesso de uma vitória massiva Guardiola conseguiu que o seu público abrisse os seus horizontes e se juntasse à equipa naquilo que é um dos pilares fundamentais do seu jogo: cada passe para trás é a possibilidade de se começar um novo ataque. E é, sobretudo, a possibilidade de se começar um novo ataque em melhores condições do que as anteriores. E se é difícil para quem trabalha diariamente o entender, um reforço do público, do ambiente que os envolve, poderá dar à equipa o impulso necessário para nas situações de maior tensão continuarem a fazer o jogo que estão habituados. O jogo que treinam e que os distingue. Um jogo menos inglês, menos partido. O jogo que procura pelas melhores situações de ataque, e o jogo que permite que sejam a equipa que mais vezes consegue entrar dentro da área adversária e criar situações de golo, ainda que não concretizem.

A vitória de Pochettino é um pouco mais notável que a de Guardiola, porque consegue em dois anos consecutivos competir contra equipas de valor individual e poder financeiro bem superior. É, mais uma vez, o segundo classificado, o melhor ataque e a melhor defesa. E tudo isto assente num fundamento que se limita a seguir a lógica do jogo: se temos a bola temos mais possibilidades de marcar e menos possibilidades de sofrer. É por não ser inglês, nada inglês, que Pochettino triunfa consecutivamente sem os argumentos dos maiores clubes ingleses. É a melhor defesa porque não dá a bola por nada, e é o melhor ataque porque procura seleccionar melhor que o adversário os caminhos para finalizar. Não acredita no jogo das divididas e das segundas bolas; Joga em passe, em muitos passes. Se fizermos um exercício injusto* de um campeonato com duas épocas seria ele o campeão. Quando se fala de sucesso à longo prazo, e de formas de jogar o jogo melhores do que outras por garantirem melhores resultados ao longo do tempo, é muito isto. Mais pontos, mais golos marcados e menos golos sofridos, na regularidade.


* (Injusto porque Conte, Guardiola, Klopp e Mourinho não estão há dois anos nos respectivos clubes)

segunda-feira, abril 03, 2017

A Circulação Vertical e a Utilização da Largura

A circulação horizontal (em largura) ainda é falada como uma das principais formas de desorganizar o adversário. Até bem pouco tempo onde as referências eram mais individuais do que zonais, tal fazia sentido. Qualquer passe, em qualquer direcção ou sentido, obrigava a um deslocamento e a uma investida na direcção da bola porque esta tinha chegado ao jogador que se estava a marcar. E se isso fosse feito com velocidade, como ainda se fala hoje, mais ainda seriam os efeitos dessa circulação. Com a evolução dos métodos defensivos, com a defesa zonal e com os últimos tempos da marcação individual como a conhecemos os conceitos mudam e as realidades evoluem. Deixa de ser suficiente para desorganizar a equipa adversária circular a bola fora do bloco, em largura, por mais velocidade que se meta nessa circulação.

Com as marcações mistas, e com as equipas a defenderem mais juntas, impõe-se um tipo de jogo mais vertical que obrigue o adversário a reagir e a investir sobre bola para se criarem espaços. Como o adversário está interessado em defender espaços mais do que defender o homem, para o desorganizar e cansar deve-se incentivar a que este saia da sua zona passiva e tenha uma atitude mais pressionante. Tal faz-se usando a bola como engodo. Não é que a circulação horizontal deixe de fazer sentido, e que não permita ultrapassar um ou outro elemento da organização defensiva contrária. Permite guardar a bola com segurança para descansar, permite tempo para que a equipa se (re)organize na sua estrutura posicional definida para começar o jogo ofensivo, e também permite que se encontrem outras possibilidades para se invadir o bloco adversário. Mas se o objectivo for criar espaço, então o melhor é desposicionar o adversário sem lhe dar hipótese ou aos colegas de reagir a tempo de fechar o espaço que foi criado. Atacar a profundidade, usar o apoio frontal para provocar a pressão, ou fazer uma variação de flanco em diagonal (largura e profundidade) para criar desequilíbrio na estrutura adversária. Mesmo em termos de desgaste normalmente diz-se que circular a bola muito rápido cansa o adversário, mas se a circulação for demasiado horizontal e fora do bloco, que não obrigue a saídas das posições definidas, a ajustes e compensações o desgaste será sempre muito pouco. Não há nada que desgaste mais do que uma obrigação de investir rapidamente sobre a bola, e a consequente obrigação de fechar o espaço que ficou livre pela saída do colega da sua zona; pela aproximação da bola e do adversário do bloco defensivo, da linha defensiva, da baliza. As constantes acelerações e travagens no sentido de uma baliza e de outra (para trás e para frente - sair na bola e voltar para uma posição que pode não ter nada a ver com a posição inicial em relação aos colegas) são do mais exigente do ponto de vista físico e mental que pode existir.

A circulação em "U", que utiliza a largura como referência para fazer o adversário bascular de um lado para outro (mesmo que com uma variação horizontal longa de corredor para o lado contrário) tem hoje face às novas organizações defensivas poucos efeitos práticos. A largura deve ser utilizada, sim. Mas de forma circunstancial, apenas como referência para encontrar espaços centrais, ou em situações de ataque à última linha do adversário. Uma equipa que faça da circulação vertical o seu ponto forte (que utilize apenas a largura pontualmente para retirar de pressão, para encontrar outros ângulos para atacar o corredor central, e para para causar constrangimento à última linha do adversário), que saiba exactamente os efeitos da circulação vertical e esteja trabalhada para aproveitar os espaços que daí se criam será sempre a equipa contra a qual o adversário sentirá maior desgaste. O Nápoles talvez seja, hoje em dia, a equipa que melhor faz uso dessa circulação para criar espaço, e que está melhor preparada para o aproveitar.

segunda-feira, março 06, 2017

Perder hoje para vencer amanhã

A frase de Jorge Jesus, e é sobre o que deveria ser a filosofia do Sporting no que sobra da época. No entanto, cada vez melhor se percebe que o Sporting contratou um treinador com uma ideia, para uma ideia, e que por isso haverá um preço talvez demasiado alto a pagar no médio e no longo prazo.

Urgem os títulos no Sporting. E por isso a opção de Bruno de Carvalho por um treinador que em Portugal garantiu títulos noutro grande, num passado recente, percebe-se. Mas, para tal, é fundamental dar-lhe o que ele precisa para triunfar. Os jogadores com o perfil que ele gosta, e com qualidade suficiente para superar o modelo táctico que ele exige. Neste momento, o Sporting não cumpre com o que Jorge Jesus exige, e talvez por isso o caminho seja tão atribulado.

O parágrafo anterior contem um dado fundamental para o momento actual do Sporting, porque o treinador mostra-se com dificuldade em responder à uma mudança abrupta de contexto. E não, não é dos resultados que se fala. Sabendo-se que com Jesus a equipa é orientada para o rendimento imediato, e percebendo-se que os títulos são quase utópicos, o Sporting parece preso na ideia de que lhe falta qualidade para cumprir com o que se predispôs no início da época. O caminho é hoje diferente, mas o treinador do Sporting não está disposto a abdicar da sua filosofia em prol do novo contexto onde está inserido. Parece não querer adaptar-se, e ter até algum receio de percorrer os novos caminhos. Isto é, os putos imberbes do Sporting (não tão imberbes assim por se terem mostrado capazes de triunfar na primeira liga) têm qualidade ou não? Qual é a opinião do treinador? E a do clube? Na minha opinião sim. Há muita qualidade ali, demasiada para não ser aproveitada. E o último obstáculo a ultrapassar é a exigência de jogar num grande. A exposição ao erro, e a mediatização de todos os momentos que são esmiuçados ao detalhe. No fundo, a pressão. Sabendo-se que os títulos estão longe do horizonte esta época, e que os miúdos podem dar um salto fundamental para o aumento da qualidade de jogo do Sporting ("sem gastos"), faz sentido continuar a escondê-los do jogo? Não fará mais sentido do que nunca não pensar nos resultados no imediato para garantir craques num futuro bem próximo? Serão Podence, Geraldes, Iuri, Matheus e até Gauld, merecedores de um futuro diferente pela diferença que poderão fazer no Sporting do futuro?

domingo, fevereiro 26, 2017

Jorge Jesus e o que separa os bons dos melhores: A Soberba.

Já todos conhecem a minha opinião sobre Jorge Jesus: é um fantástico treinador. As equipas por onde passa tendem a personalizar a sua ideia de jogo em campo, e a cumprir com as directrizes a que os obriga quase ao milímetro. Assim o é, fantástico, porque tem o conhecimento que separa os melhores dos bons: o técnico, ou se quiserem, o táctico. Ninguém tem mais conhecimento táctico que o treinador leonino, passe o exagero. São muito poucos os que conseguem operacionalizar de forma tão fiel o que lhes vai na cabeça. Porque o jogo não depende dele, depende do entendimento e posterior reprodução de outros elementos daquilo que o treinador lhes tenta passar: aprendizagem. É isto que Jesus oferece. Ainda hoje, na conferência de imprensa no final do jogo na Amoreira, Jorge Jesus voltou a dar mais uma prova cabal do seu conhecimento táctico da modalidade e da ideologia que ele quer transmitir, ao admitir que o Sporting tem sido uma equipa pouco rigorosa nos posicionamentos defensivos. Desde a linha defensiva, aos médios e avançados, que têm adoptado posições muito fora daquelas que são as consideradas como ideais. Por isso, nunca concordei quando foram dizendo, e ainda dizem, que a Jesus faltam skills na comunicação. Não concordo porque percebo que ele consegue transmitir exactamente o que quer com maior ou menor dificuldade na linguagem. Os jogadores entendem, a equipa técnica e todo o staff do clube entende, os jornalistas entendem, e o público que o ouve e dele faz chacota (pelo mau português) também entende. Nunca ficam dúvidas do que ele quer, quis, ou quererá dizer; e isso, amigos, é comunicar bem. A mensagem passa. Porém, em mais uma conferência de imprensa deliciosa pelo conhecimento que transmite das situações de jogo, e da influência que os golos marcados ou falhados têm na estabilidade emocional e táctica da equipa, deixa uma vez mais uma mancha naquilo que são as competências relacionais que qualquer um dos melhores treinadores deve ter. São demasiadas as vezes em que chama a si o protagonismo e relega para segundo plano aqueles que o público paga bilhete para ver: os jogadores. Parece esquecer-se consecutivamente que ao fim do dia é deles que depende. Ser treinador é na maior parte do tempo perceber que o nosso papel tem relevo mas é secundário, e que a ribalta é sempre, mas mesmo sempre, para os jogadores. Porque quando Jorge Jesus ensina e eles têm sucesso o mérito é conjunto (jogador e treinador), mas se tivesse falhado o jogador ficaria abandonado num coro de críticas muitas vezes iniciado por quem o "ensinou".


No fundo, o conhecimento táctico é o que separa os bons dos melhores. Mas nenhum poderá pertencer ao grupo dos melhores sem as competências relacionais que permitem gerir um grupo sobre o qual um treinador tem responsabilidade.

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

O gradual desaparecimento de Óliver

Têm sido muitas as reacções no sentido do mau investimento que foi a compra de Óliver Torres, e ainda que possa chocar concordo absolutamente com essas apreciações. Óliver Torres tem piorado ao longo do tempo, e a sua influência no futebol da equipa, o seu rendimento, não é o mesmo. Não tem aparecido com o fulgor que nos habituou, e com a  superior qualidade da construção à criação. Por isso, reitero, foi uma compra despropositada.

"Lá fora perguntam-me constantemente como é que se vai buscar jogadores ao futebol português se as equipas não nos permitem perceber as qualidades deles de forma consistente, por estarem maioritariamente envolvidos em tarefas defensivas ou em duelos"
A frase é de José Boto, uma das minhas actuais referências.

Em Portugal é difícil encontrar uma equipa que permita aos seus jogadores mostrar qualidades ofensivas distintas, e há jogadores que não se conseguem expressar em campo, mostrar o que de melhor têm, porque o jogo que se joga não os favorece. O exemplo máximo é Xavi. O jogador mais incrível que passou pelo futebol ao nível da tomada de decisão, sem intensidade para recuperar defensivamente e força que vença duelos, para vergar o mundo à sua superior qualidade necessitou que o jogo desse uma volta no sentido de o beneficiar. E tendo-o beneficiado, não houve ninguém melhor do que ele. Passou a ser o jogador que corria mais, porque corria para ser uma linha de passe constante; passou a ser o jogador que mais recebia a bola, por consequência de ser sempre uma linha de passe e dos colegas reconhecerem a influência que tinha para todo o jogo da equipa. No fundo, Xavi sempre foi aquilo que o ambiente onde esteve inserido quis fazer dele.

O mesmo se passa com Óliver, Rúben Neves, e até com Diogo Jota. Talento não lhes falta, e já se mostraram capazes de o expressar. O problema é que a medida que o tempo passa o jogo da equipa vai mudando, a equipa vai ficando cada vez mais parecida com o que o treinador quer, e o efeito de jogar com outros talentosos em campo vai-se esfumando. A escolha do onze, que continua a ser fundamental para fazer um futebol grande (como foi aparecendo quando os talentos andavam soltos) perde a influência que tinha porque o jogo é outro. Não é num jogo de duelos, de procura constante da profundidade, que se podem notabilizar estes talentos. Tão pouco é num futebol que se quer jogar sem bola. Para o rendimento de Óliver voltar a ser constante, e não apenas de momentos, a equipa precisa de em primeiro lugar de querer mandar no jogo. Querer ter bola, e ter uma ideia diferente da forma de a utilizar para chegar ao golo. Para que Óliver tenha mais tempo a bola, esteja mais envolvido no que de melhor pode dar ao jogo. Para que os colegas comecem a perceber que o jogo da equipa será tanto melhor quanto mais vezes a bola passar por ele. Depois o treinador precisa de ter a coragem para deixar que sejam os jogadores os protagonistas. Soltar os talentos em campo, os inteligentes e de qualidade técnica assinalável. Para que cada vez mais, e cada vez melhor, joguem uns com os outros. Que sejam eles a criar os melhores princípios da equipa, e a gerir o jogo, por terem percebido onde e quando é que o colega vai aparecer e em que condições gosta de receber a bola. No fundo, treinar para que os talentosos joguem em função uns dos outros e comecem a intuir as intenções do colega antes dela acontecer. Porque é isso que dá velocidade ao jogo e surpreende o adversário. Ver antes é muito isto. Para Rúben Neves, Diogo Jota, e Óliver Torres voltarem a ser inquestionáveis, o jogo é que tem de se adaptar a eles e não o contrário. Comprar Óliver, pedir Jota e ter formado Rúben Neves são opções irresponsáveis se o futebol da equipa não "chamar" pelas suas melhores qualidades. E que qualidade têm eles.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

A efusiva celebração de Guardiola

Enquanto Guardiola festejava efusivamente, eu pensava sobre as coisas fantásticas que este treinador fez pelo jogo, e sobre que coisas estaria ele a festejar efectivamente. Claro que será impossível dissociar tal celebração do momento que a equipa vive na Premier, muito longe do primeiro classificado; quando a expectativa inicial, reforçada pelos primeiros jogos ao serviço do City, seria a de estar a lutar ponto à ponto pelo título. Percebendo também que a equipa atravessa uma fase de dúvidas, e que o próprio Guardiola se está ainda a adaptar aos jogadores e à mentalidade britânica, é um momento particularmente marcante tendo em conta as incidências do jogo.


Guardiola celebrou uma primeira parte cheia de azares. Onde foi melhor, criou situações para se colocar numa situação confortável e saiu a perder. Dominou o jogo como gosta, teve bola, e encontrou as situações certas para acelerar. Geriu bem a transição defensiva, mas teve alguma falta de rigor na defesa da profundidade. É sempre um risco que ele corre ao atacar em espaços reduzidos, e defender em espaços grandes. Viu-lhe ainda ser negado um penalti, e um Mónaco muito mais eficaz nas situações que criou do que o City.

Guardiola celebrou uma segunda parte cheia de sorte. Viu Falcão falhar um penalti num momento importante, marcou em situações de bola parada, e viu o Mónaco em cima do marcador a desperdiçar situações de igualdade e superioridade com muito espaço por erros de decisão já dentro da área. Viu Yaya Touré, nesse momento (2-3), mentalmente pouco disposto a dar-se ao jogo defensivamente mas a ganhar nova energia e novo foco depois de novo empate (3-3). No final, Yaya já recuperava novamente para perto da linha defensiva reduzindo o tempo para os jogadores do Mónaco a atacarem.

Guardiola celebrou a reacção dos seus jogadores. Por terem recuperado num jogo desta importância das contínuas dificuldades que o Mónaco colocou, tanto no marcador, como nas situações de jogo que criou e na forma como foi defendendo.

Guardiola celebrou com os adeptos. Porque não vai ser fácil tê-los do seu lado sem que eles compreendam o que ele se propõe a fazer por lá. E se há coisa que pode marcar a viragem no clube, na cultura do clube, é a união dos adeptos à equipa e ao treinador. Muitas vezes sozinho esta época, com o público a abandonar o estádio mais cedo, ele continua a enviar-lhes mensagens da importância que tem eles estarem com a equipa.

Guardiola celebrou Aguero. Pelos golos que marcou, mas sobretudo pela importância que teve nos que não marcou. Neste jogo, ganhou a possibilidade de lhe mostrar em dois lances (que se sucederam) o melhor e o pior de Aguero, comparando-o à ele mesmo. Sendo que o melhor teve o melhor reforço que poderia ter: uma jogada de envolvimento com os colegas onde serve de apoio frontal, e no final entrega a notoriedade para Sané fazer o golo; e o pior, bem, foi mesmo o pior. Curiosamente, ou não, era a Sané a quem deveria ter entregue a notoriedade poucos segundos antes.


Guardiola celebrou a vitória de um modelo e de uma ideia de jogo. Porque em vários lances conseguiu colocar tudo aquilo que tanto trabalha do ponto de vista ofensivo em jogo. Conseguiu expor a linha defensiva de Leonardo Jardim, e ataca-la com qualidade. Mas conseguiu sobretudo dois pontos fundamentais daquela que é a sua maior herança para o futebol: 1) Encontrar o homem livre, o melhor jogador para dar seguimento ao lance, o jogador em condições ideais para acelerar o jogo e colocar um colega na cara do golo. Foi dessa forma que conseguiu criar as melhores ocasiões para finalizar. 2) Com isto, fica reforçada a importância do apoio frontal (mesmo com pressão) para colocar-se jogadores de frente para o jogo, sabendo-se que de outra forma as linhas se fechariam e as condições seriam diferentes. Se Yaya de uma qualquer forma coloca logo em Silva os médios do Mónaco estariam mais dentro do lance e mais rapidamente em contenção e dessa forma o foco da linha defensiva já não seria tanto na bola e mais no controlo da profundidade. É uma diferença importantíssima.

Guardiola celebrou o resultado da procura das melhores ocasiões de golo. Porque num lance, em vários lances, em todo o jogo, procura pelo melhor. Não é suficiente o 1x0+Gr, quer 2x0+Gr; e chega ao absurdo de criar 3x0+Gr, coisa que se pensava já não existir nas melhores provas europeias. Mais uma vez fica a evidência de que quem tem a bola tem a vantagem, porque não são precisos muitos para atacar bem. É preciso apenas estar nas posições certas, e percorrer os melhores caminhos vezes suficientes para que a fortuna possa advir mais do nosso trabalho do que do demérito do adversário ou de outro género de imponderáveis.

Guardiola celebrou o talento que se expressou no relvado. Uma barbaridade as exibições de David Silva, Falcão, Bernardo Silva e Yaya Touré. Touré a demonstrar, com bola, como deve jogar um "6" no futebol moderno, e como gerir o passe (a procura e a espera pelo melhor passe). Falcão com mil golos, e com confiança para fazer aquelas brincadeiras num jogo de pressão máxima. O génio dos "Silvas" absolutamente assombroso a cada toque na bola. Delicioso perceber o que David rende agora no corredor central, com liberdade para criar de uma posição onde vê tudo, com o campo sempre aberto. Pernicioso que muitos reconheçam a fantástica evolução de Bernardo, o quão forte e empenhado esteve nos momentos defensivos, na reacção à perda, mas que tal como Silva há tempos atrás continuam a achar que deve jogar encostado à linha. O que Silva (o David) tentou mostrar ao mundo é que Silva (o Bernardo) será sempre muito melhor como médio ofensivo do que como extremo, ou médio ala. Seja como for, a cabeça e o pé esquerdo de Bernardo são incríveis por isso ele seria sempre notado mesmo que como Lateral Esquerdo.

Guardiola celebrou a vitória. Porque ao final das contas é ela que melhor defende um grupo de trabalho que ele tanto estima. Tem sido incansável na defesa da sua equipa, e já chegou ao ponto de questionar quem coloca dúvidas sobre os seus jogadores se alguma vez lhes tinha passado pela cabeça que podia ser ele a não ser o melhor treinador para aqueles jogadores, e não o contrário. Como sempre, Brilhante!

domingo, fevereiro 05, 2017

Yaya Touré comanda a linha ofensiva de Guardiola.

Aos 33 anos de idade o médio do City parece ter finalmente percebido que a displicência e a procura pela notoriedade que tanto o caracterizavam são inimigas da notabilidade. E o melhor de tudo é que o treinador que agora o acompanha o tem reconhecido, e tem dado ênfase ao quão notáveis têm sido as suas exibições recentes. Se há coisa que a suspensão de Fernandinho trouxe foi um maior valor para o futebol que Guardiola gosta na posição mais recuada do meio campo. O azar de Fernandinho permitiu a Guardiola perceber, principalmente nos últimos jogos, a diferença que é jogar com Touré atrás de Silva e De Bruyne. Se é certo que a equipa perde alguma agressividade na altura de recuperar posições, nos duelos, e na recuperação de bolas, o que Yaya acrescenta em organização ofensiva tem compensado tudo isso. Quando em posse, é Yaya o grande responsável pela gestão dos tempos de ataque. Define se a bola fica com a linha defensiva, ou se há condições para avançar e procurar jogadores em linhas mais adiantadas. Gere as saídas para contra-ataque, ou temporiza para que a equipa se organize e procure um ataque mais posicional. É o jogador mais capaz de ficar com a bola mesmo que pressionado em zonas recuadas, e essa segurança que ele permite ao jogo de posse tem um valor inestimável para a construção de Guardiola. Não treme com ela nos pés, e tenta procurar sempre pela melhor solução para a equipa sair. Acrescenta criatividade, qualidade técnica e pausa em relação a Fernandinho. A sua presença em campo dá mais descanso e estabilidade ao futebol de Silva e De Bruyne, uma vez que estes não precisam de se preocupar tanto em baixar para pegar em zonas mais recuadas, entrando em jogo em posições adiantadas na maior parte do tempo. Touré permite-lhes que descansem, que se foquem mais na criação, no desequilíbrio e no jogo de ataque à baliza, por ser capaz de gerir e guiar todo o processo de construção. Encontra os melhores passes, os melhores jogadores entre sectores, espera para perceber se a situação muda com uma simples pausa e se os espaço continuar fechado varia o centro de jogo com muitíssima qualidade. E mesmo quando não toca na bola, como se percebeu no jogo de hoje, principalmente na segunda parte onde Llorente parece ter recebido ordens para não o deixar jogar, guia os seus colegas para aproveitarem o espaço que fica pelo arrastamento que ele faz do seu marcador individual.


No jogo de toque que Guardiola pede, de paciência, e de aceleração nos momentos que trabalha, Yaya tem sido o jogador mais notável do City. Parece ter as ideias todas de Guardiola na cabeça, e parece finalmente estabilizado do ponto de vista emocional por não procurar constantemente zonas adiantadas para ganhar notoriedade. É ali, na construção, e a permitir que os pequenos criem, que Yaya é rei. O Manchester City tem jogado o que Yaya os faz jogar, e quando ele não aparece como na segunda parte de hoje de imediato o futebol da sua equipa se ressente. A qualidade e o potencial de cada ataque diminui, e a equipa tende a partir nos momentos de tensão por não ter o seu toque a pisar e, e a fazer refrear os ímpetos do jogo, dos colegas, do adversário.