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sábado, junho 17, 2017

Futebol em preto, branco e cinzento

O futebol é um jogo em que no final de uma competição alguém sairá vencedor...sempre. E desse ponto de partida percebe-se que, a condição fundamental para cortar a meta em primeiro lugar é lá estar. Isto é, qualquer um arrisca-se a ganhar desde que esteja inscrito na competição. E, a não ser que se considere um grande mérito estar inserido numa qualquer prova de futebol, o ganhar por si só não revela competência ou qualidade por parte da equipa que sai vitoriosa no final. Nem os jogadores têm mais qualidade do que os outros por terem vencido, nem o treinador tem mais competência por ver a sua equipa coroada com a vitória final. Pode, sem ser absurdo nenhum, uma equipa vencer o campeonato e as provas europeias sem treinador, por ser individualmente muito superior. E é aqui que começa o preto e o branco.

O preto é o principal atalho para uma equipa conquistar os objectivos a que se propõe: o jogador. O grande desequilibrador, à priori, de jogos de futebol, é a diferença de qualidade dos jogadores. E mais uma vez, a diferença não está em quem sai vitorioso no final do jogo, mas sim na forma que cada um joga o jogo. Isto é subjectivo? Não. O futebol é um jogo que tem regras, e as regras dizem que, por exemplo, se fizeres falta dentro da tua grande área a equipa será punida com um pontapé de penalti. Ou seja, um jogador que esteja constantemente a fazer faltas dentro da grande área é um jogador que está a jogar mal o jogo, por estar a diminuir com as suas acções as probabilidades de êxito da equipa. E é, portanto, um jogador de menos qualidade do que um que não esteja de forma constante a fazer faltas dentro da grande área. Se uma equipa quer ganhar consecutivamente o passo fundamental a dar é ser mais forte do que a concorrência na qualidade individual dos jogadores. São eles que jogam, que fazem a bola rolar, que marcam golos, e que resolvem os problemas do jogo. Portanto, a aposta incondicional deve ser neles, porque quem tiver os melhores jogadores, com ou sem treinador, será sempre o maior candidato a conquistar as provas em que está inserido.

Há porém outros factores de desequilíbrio no jogo. Factores externos, que vão influenciar a performance dos jogadores. O branco. A forma como o arbitro guia o jogo, o maior ou menor estado de inspiração ou confiança do jogador, o clima, o estado do campo, o ruído exterior dos agentes do clube ou dos meios de comunicação, o público, as relações pessoais do jogador, a sorte, etc. É um jogo que impõe uma interacção tal de seres humanos que são incontáveis os imponderáveis que no final influenciam o desfecho de um jogo e de uma competição. O branco, juntamente com o preto, é o que faz do futebol este desporto apaixonante onde quem parte em larga desvantagem pode sempre sonhar com a glória da vitória final. É o desporto que faz, como muito poucos, aparecer o cinzento.

Falando mal e depressa, o cinzento são os problemas que o treinador tenta resolver. É isso que distingue os treinadores dos cozinheiros. O treinador resolve problemas do jogo, o cozinheiro resolve problemas de cozinha. Se não é para não resolver problemas, o que está lá o treinador a fazer então? Qual é o grande mérito de alguém que está lá para fazer um trabalho e não consegue, ainda que no final vença? Voltemos ao início: Venceu porque alguém tinha que o fazer. E, se não se percebe o seu toque na performance da equipa por que motivo se tenta procurar na sua figura algum mérito em particular? Vivemos numa sociedade onde todos procuram por justificações, factos, para explicar o sucesso de determinada figura ou de determinado evento. E por isso, por andarem todos a fazer o mesmo, a conclusão é sempre igual. Por exemplo, no futebol, se um treinador ganha e ninguém percebe exactamente o dedo do treinador nos padrões de jogo da equipa, ou se esses mesmos padrões são pouco evoluídos e não deveriam dar resposta aos problemas que o jogo apresenta, então torna-se unânime que a vitória foi da liderança do treinador. A conclusão é sempre a mesma, porque andam todos a fazer a mesma pergunta, sobretudo a nova e mais formada classe dos treinadores: Qual é o mérito do treinador nisto? Mas, a pergunta já assume que algum mérito de peso há de ter. Já vai viciada. Quando aparece alguém a questionar esse método, a dizer que uma equipa pode ganhar independentemente do treinador, ou que o mérito do treinador é tanto quanto o mérito do observador dos adversários (há mérito, mas não é de todo fundamental para o sucesso), de imediato causa estranheza. Porque, mais uma vez, anda tudo a perguntar o mesmo.

O Leicester é um bom exemplo para este caso: o mundo do futebol rendeu-se à competência colectiva, e à liderança do treinador que os guiou ao título. Tinha que haver algum mérito nas ideias de jogo arcaicas de Ranieri, e o resto era a forma como geria o plantel. Era uma equipa, por exemplo, fortíssima nas bolas paradas defensivas e ofensivas, por mérito do treinador. Foi o trabalho desses momentos do jogo que permitiram que esse factor, as bolas paradas, se revelassem tão eficazes. Passado uns meses, com o mesmo treinador e tendo apenas perdido um jogador (que para as bolas paradas pouco importante era), passaram a marcar muito pouco de bola parada, e sofriam quase sempre nos mesmos lances. O que se passou? Mais uma vez, turvados pela visão do sucesso circunstancial, todos perguntavam o mesmo, e por isso, a resposta foi uma só. Hoje, gostaria de perceber qual é a explicação para o défice colectivo nas bolas paradas da mesma equipa, e para a quebra das qualidades de líder de Ranieri. Por exemplo, não será no aperto, na dificuldade, que melhor se percebe a capacidade de liderar de alguém?

Bom, voltando ao cinzento, a responsabilidade do treinador é tentar ao máximo retirar o efeito dos imponderáveis sobre a performance dos seus jogadores. Isto é, tornar o jogo mais limpo e mais simples para eles, para que possam evidenciar as melhores qualidades e esconder os defeitos. E é pela linguagem colectiva, pelos padrões de jogo, que o treinador o faz. Assim como um cozinheiro o faz pela forma como confecciona os seus pratos, o método no futebol também importa. Um método melhor, que resolva melhor os problemas do jogo, é um método que perdura ao longo do tempo. Mas, para tal, é preciso que também perdure no treino. Porque, não há mudanças duradouras que se façam com pouco tempo de prática. E o que parece hoje é acreditar-se que o sucesso circunstancial é que dita tais mudanças. É como aquela sensação que se tem quando, por exemplo, se toca piano pela primeira vez. Naquele dia sentes-te o super homem, e com uma capacidade brutal, porque vais melhorando muito, em muito pouco tempo. Porém, passados dois dias sem tocar regressas à realidade e percebes que afinal não tinhas aprendido nada. E muitos treinadores hoje, ao fim de duas ou três semanas desistem de uma forma de jogar e de treinar porque os jogadores não estão a executar como querem. Talvez as ideias não estejam tão afinadas, não sejam tão sólidas. 

Vou, mais uma vez, fazer uma oposição entre Mourinho e Guardiola. Pogba diz que Mourinho é bom porque ganha, que é especial por isso. Kompany diz que Guardiola é especial porque nunca tinha visto o City pressionar tanto, ter tanta bola, chegar tantas vezes com perigo, dominar tanto as incidências do jogo. Disto, ficam sinais de que as mudanças que Guardiola tenta operar (pela aprendizagem) serão mais duradouras e relevantes do que as de Mourinho (pela vitória de uma forma qualquer). Isto é, enquanto Guardiola procura durante a semana provocar uma mudança nos seus jogadores para que procurem pelas melhores formas de jogar futebol, Mourinho procura por estratégias em cada semana para derrubar aquele adversário em particular. De um dia para o outro, de uma semana para outra, é natural que os jogadores de Mourinho se comportem de forma diferente, e que depois de aparentemente terem aprendido já não saibam repetir o comportamento ainda que a circunstância o peça na semana seguinte. Porque foi uma aprendizagem circunstancial, de curto prazo, e por isso não perdura. E se é claro que os treinadores devem procurar por jogadores que vão mais de encontro à sua forma de jogar, é no treino que, pela repetição, os jogadores se aproximam do que o treinador pede. É uma tarefa difícil! Muito difícil, sem dúvida. Mas se o treinador apenas serve para treinar e jogar na sua ideia de jogo, com jogadores que já estão dentro desse idealismo,  qual é a diferença entre ter um treinador, ou contratar apenas jogadores dentro daquela ideia e ter no lugar do treinador um cozinheiro? Onde está, afinal, a competência do treinador? Se a qualidade do treinador não está presente na forma como a equipa se apresenta em campo, então está no quê?

O treinador, hoje, esconde-se por trás da qualidade dos jogadores para justificar que a sua equipa não jogue o jogo que ele idealiza. Mas então, das duas uma: ou o treinador escolhe muito mal os projectos e os jogadores, ou então não tem competência para tentar convencer os seus jogadores de que há outros caminhos mais prováveis para o sucesso, e que esses caminhos serão menos de circunstância e mais duradouros do que outros. Claro que, um jogador preto será sempre preto e um jogador branco será sempre branco. Mas, se o treinador persistir na procura de novas soluções para resolver o problema do afastamento que existe entre a sua concepção de jogo e a forma como o jogador interpreta o jogo, o preto e o branco poderão tornar-se um pouco cinzentos. E essas pequenas mudanças só poderão ocorrer com a exposição dos jogadores ao erro dentro de uma determinada ideologia no treino, e no jogo. Porque é pelo erro que ele vai descobrir os seus caminhos dentro daquela forma de operar.

As grandes equipas da história tiveram uma coisa em comum: Controlavam a bola e o espaço. Isso significa que quando tu tens a bola tu mandas no jogo, e quando defendes controlas o espaço. Arrigo Sacchi.  

2 comentários:

GV disse...

Viva Blessing!

Entendo o que queres dizer. Concordo parcialmente com algumas considerações genéricas mas gostava de entender melhor como aplicas as mesmas na apreciação de casos concretos.

Gostava que enquadrasses o caso do Jorge Jesus no Sporting neste raciocínio.
Uma primeira época a competir até ao fim pelo campeonato, a mostrar competência defensiva e nas transições, com dificuldades na organização ofensiva, mas em geral um trabalho competente no campeonato.
Uma segunda época má. Os pontos fortes da primeira época foram-se esfumando. Nem a organização defensiva conseguiu vingar.
No caso do Ranieri aplicas uma lógica da primeira para a segunda época. E no caso do Jorge Jesus no Sporting, como aplicas a lógica que descreveste?

Pegando no outro exemplo que deste, Mourinho vs Guardiola, faço uma nota de enquadramento para depois te colocar uma pergunta.

Nota: Considero que o Guardiola fez um trabalho impressionante no Barcelona. Considero que no Bayern já não foi tão assim. O City é o verdadeiro desafio pós Barcelona para o Guardiola, porque, muito ao contrário do Bayern, o City é um clube que quer chegar ao topo, não estava já no topo.

Pergunta: caso na próxima época o City não se consiga impor muito mais, ganhando o campeonato ou não, mas contrariando as grandes dificuldades sentidas esta época, em que situação fica o Guardiola neste teu raciocínio?

Cumps,

Blessing disse...

No caso de Jorge Jesus não aplico nada disto. O do Ranieri era para mostrar que nem sempre o treinador tem um papel fundamental. Portanto, como Jorge Jesus tem tido sempre papel fundamental nas suas equipas. Não há o que aplicar. E é bom que se diga que o Sporting não tinha dificuldade em organização ofensiva. Teve no ano seguinte.

Em nenhuma. O Guardiola tem sempre o seu dedo nas equipas dele. Acho que não percebeste bem o texto.